ELETRICIDADE E O AMOR – CONSIDERAÇÕES ÅNGSTRÖMICAS*

Há, pelo menos e até onde sei, duas formas pelas quais podemos sentir a eletricidade estática pelos pêlos dos nossos corpos: na secura e frieza do ar que nos envolve, onde sentimos e ouvimos pequenos choques e estalos pelas superfícies metálicas carregadas sobre as quais encostamos e pela fricção dos corpos des amants.

O primeiro não oferece estímulo aqui nem desafio, pura física, simples, reta, regrada e fria. Átomos eletricamente carregados, por ordinário desequilíbrio de cargas, reequilibrando-se ao contato com superfícies de descarga.

O segundo é o verdadeiro desafio, a eletricidade imperceptível, dentre as miríades das energias envoltas no enlace amoroso das pessoas. É intra, extra e interpessoal. Uma das mais belas e complexas formas de comunicação é o ato amoroso humano que envolve o sexo.

Começa pela vulgaridade com que tratamos o tema, o que encerra em si mesmo um paradoxo. Sexo é reprodução, faz parte da evolução da espécie e todo o mecanismo envolvido providencia a plena eficiência do ato, procurando a perpetuação da carga genética dos progenitores: há orientações genéticas, químicas e físicas, satisfações sensoriais – é a sobrevivência de uma espécie.

Sexo com amor, a meu ver, é comunicação plena recheada de sinais sociais veiculados, muito além da base orgânica comum às outras espécies, como a parca e supersimplificada descrição no parágrafo acima. O ato amoroso humano envolve descargas elétricas internas tão poderosas, o que chega a provocar, no momento de clímax, uma espécie de curto-circuito orgânico, não sendo à toa que muitos amantes anestesiam após o ato.

Entre os amantes, a eletricidade interna se transfere à superfície via as belas transformações fisionômicas de prazer, dor ou ambos, das faces e corpos. São belas porque espontâneas, caindo, na maioria das vezes as máscaras “reais” que lutamos para ostentar dia a dia das nossas vidas. Nossos “eus” verdadeiros tendem a se apresentar, quando mostramos o rosto e peito nus ao amante, muitas vezes de olhos fechados e em condição de maior vulnerabilidade, próprias da confiança extrema, da entrega total. Os sons e os cheiros, os feromônios e os toques por toda a extensão da pele, tudo carreado pela eletricidade, comunicando-se fora e dentro dos corpos. A comunicação aqui é tão intensa que o corpo inteiro é um canal receptor e doador de informações, às vezes por dias e pela sociedade. Afinal, quem nunca ouviu de terceiros que quem amou na véspera ri ao acaso, tem com cara de bobo alegre ou viu passarinho verde?!

Felipe Diniz

Der Kuss. Gustav Klimt. 1907-1908

Der Kuss. Gustav Klimt. 1907-1908.

* Ångström (Å): é uma medida de comprimento comumente utilizada para lidar com grandezas da ordem do átomo. O nome da medida tem origem no antropônimo Anders Jonas Ångström, físico sueco.

1 Å = 10-10 m

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