DO PARTIDARISMO NA GREVE

Poucas coisas mais me impressionaram na greve do MMA/IBAMA/ICMBio/SBF do que observar o comportamento nas relações das pessoas com a greve, com o presidente da república e com seus partidos políticos. Tenho ouvido que as questões sindicais, bem como as questões ambientais devem, ou melhor, elas têm que ser tratadas de forma suprapartidária. Mas do discurso à prática, tenho visto muito pouco.

A paixão suscitada por partidos políticos, a meu ver, tem muito em comum às paixões das torcidas de futebol. As estruturas são até similares, organizações, bandeiras, simbologias, objetivos, embates, etc. Diferem, é claro, nas estruturas ideológicas e de funcionamento. Mas eu não julgaria estranha a idéia, principalmente num país como o Brasil, que culturalmente e até certo ponto, as coisas se misturem. Vamos lá: “Futebol, política e religião não se discute.” – expressão superpopular no Brasil, pela qual evitamos vários rompimentos de muitas amizades e verdadeiras brigas e telequetes* em bares. Outras: “Gol político”, “Marcação homem a homem no Congresso”, “Política de Cartolagem”, etc. Além do mais, temos um presidente devotadamente corintiano, que é mister em analogias de muitas situações políticas do dia a dia com eventos futebolísticos.

Ao que me parece, o que as pessoas têm dificuldade de perceber é que os entes nem sempre deveriam ser confundidos pelo bem de uma democracia e seus eventos, como as greves: existem os partidos, existem os candidatos, existem os sindicatos, as uniões de sindicatos e existe o presidente.

Estes entes podem ser julgados de duas formas: separados e juntos.

Separados são suas distintas histórias e seus contextos de criação, de participação na vida pública brasileira, de diretrizes ou pensamento e de influência na política e na sociedade nacional: existem os partidos (PT, PSDB, PMDB, DEM, PV, etc); existem os pré-candidatos à presidência (Marina, Serra e Dilma, que são os mais conhecidos); existem os sindicatos (Sindsef-DF, Sindsef-SP, Sintraf, etc); existem as uniões sindicais (CONDSEF, Conlutas, etc) e existe o presidente Lula.

Juntos, pode-se observar para mais facilmente julgar os atos perpetrados quando as ações desses entes tocam-se no mesmo momento histórico. Particularmente, na nossa greve, houve o Decreto Nº. 1.485, de 03 de maio de 1995, editado pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, mas usado pelo Presidente Lula, que é do PT, numa manobra convergente que, a meu ver, não necessariamente envolve a política do PT, nem dos sindicatos, mas de dois presidentes, que devem pensar de forma semelhante no trato com as greves no serviço público e privado.

Outra coisa, temas de políticas públicas estratégicas ao desenvolvimento, como o meio ambiente, devem ser tratados, consequentemente, como elementos estratégicos nos âmbitos das diretrizes partidárias.  É o tipo da coisa que quem luta pela causa ambiental tem que ter em mente durante as eleições.

Os sindicatos e suas uniões se encontram, com relação ao tema de meio ambiente, lutando com um conflito de natureza filosófica pra lá de sério. A base das organizações sindicais foi a luta sistematizada pelos direitos trabalhistas, inclusos como direitos fundamentais do homem. Paralelamente, mas reconhecido muito mais tardiamente, também ali já estava presente a luta pelas condições ambientais de trabalho, como um reflexo direto pela saúde do trabalhador um menor impacto no meio ambiente. Como exemplo cito as observações clássicas das variações frequenciais nas populações camufladas das mariposas Biston betularia, feitas por J.W. Tuttes no século XIX, melhor compreendidas por J.W. Heslopp-Harrison e outros cientistas no século XX, nos arredores da Londres industrial, em virtude da fuligem, já entendida deste então como fonte de doença, principalmente para as crianças, que eram legalmente empregadas em fábricas da época. Junte-se a isso a curtíssima história de um líder sindical industrial do ABC paulista, alçado à condição de presidente da república, extremamente popular, com um medo do meio ambiente em relação ao que ele deve entender por desenvolvimento e progresso e com um gosto meio duvidoso em relação aos “colegas” líderes em termos de política internacional. Ou seja, em uma análise bem simplificada mesmo: eu esperaria confronto de idéias mesmo entre o presidente Lula e os sindicatos com relação ao meio ambiente e direitos trabalhistas; pelo menos, num mundo ideal, onde pratico livremente a minha utopia e a minha ingenuidade isso aconteceria.

Mas como a esperança é a última que morre e ambientalista é raça ruim de ir junto, ainda consigo ver um esforço muito grande de alguns sindicalistas e sindicatos em romper as barreiras de fenômenos como o “futebol partidário”, tentando ainda se manter fiéis às origens das lutas trabalhistas, e no final, de forma levemente suprapartidária, tentarem defender raízes que vão muito além do simples direito ao trabalho saudável: os direitos de ser, de ir e vir e de viver.

Felipe Diniz

* Uma homenagem aos “véios” que estão lendo a nota, porque nem todo jovem já ouviu essa expressão e nem conhece a luta livre festiva e de mentira das manhãs de domingo da década de 70.

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