O QUE DÓI MAIS?

A greve dos analistas ambientais do MMA/IBAMA/ICMbio/SFB chegou ao fim. Após quase 70 dias de esforço contínuo, de luta aguerrida, se entregou os pontos e, em Assembléia, foi decidido o retorno imediato aos postos de trabalho sob a condição de “estado de greve”.

O “estado de greve” é um alerta público para possíveis paralisações em resposta imediata à desdobramentos nocivos, ruins, após a greve (leia-se represálias ou desencaminhamentos – provocados por ambos as partes envolvidas no dissídio).

A greve é um conflito dramático e traumático, particularmente aos trabalhadores do serviço público no que tange à desproporcionalidade dos golpes sofridos dos dois lados: os atingidos são pessoas, na parte dos trabalhadores, que é massa em greve; do outro é o governo que, apesar de ser formado por pessoas, configura-se basicamente como um ente impessoal, mesmo que recluso a uma das três esferas de poder, mesmo sendo representado por poucas pessoas.

Quando a greve no setor público passou a ser regulamentada, mesmo que parcamente, pela decisão do Supremo da aplicação, no que coubesse, da regulamentação do setor privado pela omissão constitucional da Casa Legislativa; passando-se ao controle, ainda que duvidoso, do Decreto Nº. 1.480/95, a greve passou não a deixar de ser instrumento como fenômeno social, a meu ver, mas perdeu a força e guia principal em seus objetivos máximos de buscas, como a melhoria salário – sua grande vitrine, tal como era conhecida nas ausências de suas normas regulamentares nas décadas de 70 e 80, pelo menos no caso Meio Ambiente, percebi se configurar dessa forma.

No caso Meio Ambiente 2010, ela surge fracamente como instrumento reinvindicatório imediatista, porém mais fortemente como elemento de união e estabelecimento da rede cooperada dos trabalhadores do MMA o que, num país das dimensões continentais como o Brasil, quando se tem gente trabalhando nos rincões mais distantes, o movimento grevista suplantou de longe qualquer tentativa de qualquer órgão governamental, no curto espaço de tempo em que se insurgiu para a consolidação desta rede de informação. A greve, portanto ressurge como instrumento de mobilização, de adesão e de informação, numa era em que isso é necessário e imprescindível às gestões públicas mais eficientes.

A greve também serve como um veículo de comunicação poderoso, que encerra em si mesma sua mensagem aos Poderes da República. Quanto mais longa e ampla for, maior é o alcance de sua comunicação, exceto nos governos extremamente ditatoriais ou onde a imprensa for muito corrompida. Mas não é o caso aqui. Por mais que a impressa nacional tenha pobremente divulgado a greve. As imprensas regionais cumpriram razoavelmente o seu trabalho e a população só ficou mesma alheia aos detalhes da greve. Nem ao seu encerramento foi dada a devida notícia. Um sinal de que não houve plena vitória do governo, como muitos pensam, houve desgaste, sim. Talvez maior do que nos apercebamos neste curto tempo após o término da greve.

Claro que, como movimento que tende a uma participação ampla e aberta, houve críticas muito bem vindas acerca do término da greve, um pouco mais agressivas, penso eu, dos capilares por onde a carreira se escorre nos veios sertanistas do Brasil. No entanto, é preciso ponderar que os “poucos” avanços que se obteve pela greve são, de fato, de difícil observação a partir das pontas. A greve foi, em seu âmago, um “grito” contínuo de quase 70 dias, foi um “chamamento” à luta, porque ela não se encerrou agora. Este foi apenas um capítulo terminado, tolo aquele que achar que não. E mesmo que vencêssemos em tudo, a greve continuaria sendo apenas mais uma etapa e nunca um fim. Nosso presidente é uma prova cabal disso.

Se não se tivesse avançado em nada pela greve, se retornaria pela greve, logo, o pensamento de derrota total teria sentido. Isto é apenas lógica. Novas etapas se descortinam por causa dos novos contextos, cenários e atores que vieram pela greve e até mesmo pela dinâmica da conjuntura política do sistema eleitoral brasileiro.

Não digo aqui que as pessoas não devam ficar inconformadas com o insucesso do objeto maior, que era a reestruturação da carreira, pelo contrário, elas têm o amparo emocional de se sentirem assim à sombra da legitimidade de seu pleito. Aliás, o turbilhão emocional que explode após uma batalha ou uma guerra é um bom diagnóstico do seu esforço, pelo trauma e pela violência vivida. É quando nos damos conta dos danos pessoais e das baixas sofridas. A gama de novas posturas e novas reflexões também nos dirá um pouco disso.

Acredito que uma das maiores dores sentidas, mas talvez ainda não racionalizadas pela maioria é a dor da perda das múltiplas ingenuidades acerca do mito da greve. Crescemos, nesta geração, vendo os esforços estóicos e heróicos de classes de trabalhadores que, por seus méritos meio robin-hoodianos desafiaram ricos e poderosos industriais num país, governado por ditadores, por meio das insubordinadas e “ilegais” greves. A greve ainda é um movimento com características românticas para a maioria, principalmente jovens oriundos das universidades, magnífica fonte de sonhos (e que continue assim, pois são eles que transformam verdadeiramente o mundo). Perdeu-se o que se achava que só se ganharia pela greve (reestruturação com aumento de salário ante um governo truculento e intransigente) e, em vários momentos, os analistas se viram sem saída sem a greve. E esta é outra ingenuidade que, ótimo, se foi com a greve. Outra coisa que se aprendeu  é que quando se briga com um governo, pode-se estar brigando com os três poderes. Num país em que o pacto federativo é frágil, o princípio da independência não precisa ser necessariamente robusto, mesmo com pleito legitimado. A gente vai descobrindo outras ingenuidades perdidas nessa greve com o tempo.

No campo profissional, caso da greve do Meio Ambiente de 2010, a desmistificação, mesmo que parcial da greve se fez necessária passando por uma greve. Isto foi muito importante para o amadurecimento do uso da ferramenta trabalhista peticionaria. Os direitos dos trabalhadores, tanto quando do meio ambiente, têm que passar agora pelo crivo da contraideologia – que já se encontra, mesmo que despercebida, entranhada na maioria dos bons analistas ambientais; também ainda terão que ser revestidos de um “colete” suprapartidário e lutar por uma maior retidão possível. Isto é necessário, principalmente para o meio ambiente. A luta é por desenvolvimento e não por simples tomada de poder. O governo que estiver no comando tem que saber fazer e o saber fazer é construção de todos (esta é uma ingenuidade minha que greve nenhuma acaba por maior que seja a dor de reconhecê-la como tal).

Enfim, dor no bolso não discuto, dor no orgulho, também não. Rabo entre as pernas é rabo entre as pernas, mas quem disse que perdemos a capacidade de morder? E garanto que a nossa mordida ainda dói!

Homenagem a todos os analistas ambientais do MMA/IBAMA/ICMBio/SFB e colegas do PGPE do MMA.

Abraços.

Felipe Diniz

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