ALTAR-MOR DOS PRETOS

Esta história talvez não seja nova, mas com certeza, pra mim foi uma novidade. Estando em Pirenópolis, Goiás, pela segunda vez, quis me certificar de uma história que conheci na primeira e não me esqueci: a dos brancos no altar dos pretos.

Acontece que Pirenópolis, lugar fascinante, cidade turística a uns cento e cinquenta quilômetros de Brasília, é uma cidade histórica, pequena e charmosa, de clima bastante agradável, que luta para manter a sua identidade histórica junto com seu crescimento econômico, que é devido principalmente ao seu potencial turístico, suas reservas de quartzito e agropecuária.

No turismo, há destaque para o tipo ecológico, com parques naturais e dezenas de cachoeiras, belezas cênicas como a cidade de pedra e uma boa dose de cerrado ainda preservado em diversas áreas, o que leva também à prática do turismo de aventura, com trilhas, rapel, tirolesa, arvorismo, cavalgada e camping. Há espaço até para o turismo ufológico, com a estória de avistamento de ovnis próximo ao Morro da Pedra.

Outro tipo de turismo é o histórico. Como a cidade já foi tombada como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, existe, em seu bojo, arquitetura e detalhes urbanísticos de traços coloniais, com destaques para a fazenda Babilônia, as igrejas da cidade, os casarões e diversas casas feitas com a tecnologia de cantaria de pedras, da argamassa de adobe (tijolo cozido ao sol) e taipa de pilão (barro rústico prensado e socado). O calendário festivo conta com festas culturais seculares, como a Festa do Divino, a Cavalhada e a quase secular As Pastorinhas. A gastronomia sofre um trabalho de recuperação histórica, ligada à fundação da própria cidade, o que se traduz na formação do Estado goiano e dos trajetos sertanistas exploradores do Centro-Oeste brasileiro.

A Igreja Matriz de Pirenópolis é, de fato, um dos maiores símbolos da cidade. Não só o centro para a referência da fé local, mas sobretudo é a referência física maior da fundação da cidade, dos traços arquitetônicos e técnicas de construção do século XVIII. É marco referencial geopolítico do município, tendo atravessado toda a história da cidade e sobrevivido, inclusive, a um grande incêndio em 2002, que destruiu quase todo o seu interior, sendo o pouco que restou objeto de visitação pública no interior da própria igreja.

Até o início do século XX, negros não frequentavam igrejas de brancos. Isto não era uma coisa de Pirenópolis ou de Brasil. Isto era um regramento universal nos países cristãos de maioria dominante branca e escravagista. A igreja católica não tinha um posicionamento claro a respeito da posição do negro na Criação, esta era a sua posição oficial, apesar de inúmeros movimentos de caráter marginal apregoarem, na prática, uma aproximação de negros e indígenas à religião católica, inclusive aos ritos dentro da igreja a ponto de vicejar, dentro destes, uma necessidade de adaptar suas culturas religiosas ao predomínio católico, inclusive pela vontade de participar dos ritos sacramentais.

Fundada em 1728, a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, possuía, em seus cinco altares, traços barrocos com entalhamento de madeira em laminados de ouro, inclusive em seu altar-mor, datado de 1761.

Os negros habitantes da localidade das Minas da Nossa Senhora do Rosário da Meia Ponte (antigo nome de Pirenópolis) construíram para si a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, cópia da Igreja Matriz, com sete belíssimos altares, todos em madeira, sem ouro. Diz a história que intervenções arquitetônicas desastrosas para a redefinição do modelo original, de colonial para neogótico, comprometeu a integridade física da igreja, vindo esta a ser demolida por ordem da Diocese de Goiás na década de quarenta, restando apenas o altar-mor em Pirenópolis, guardado como relíquia histórica por mais seis décadas, pelo menos.

Após o incêndio de 2002 e a definição da recuperação da Igreja Matriz, a pincelada de originalidade para o altar-mor foi de dois viés. Primeiro, é claro, em se trazer o altar-mor da extinta Igreja do Rosário dos Pretos, prestando-lhe o devido destaque, restaurando-lhe assim os serviços originais da sua entalhadura e recuperando muito mais do que o aspecto original da igreja, mas sobretudo o resgate cultural de Pirenópolis, traço de identidade do povo local.

O segundo viés é uma compensação, na forma de mais um reconhecimento da contribuição dos negros na formação do Brasil. Este reconhecimento não é só pela colocação do alta-mor original da Rosário dos Pretos na Matriz, mas pela insistência no registro histórico, quer seja oral, quer seja escrito, de que é no altar-mor dos pretos que todas as pessoas mantém sua fé e ganham sua educação da parte do patrimônio histórico, artístico e cultural de uma das cidades pioneiras do Centro do Brasil.

A frase “É no altar dos pretos que os brancos agora rezam” é entoada pelos guias turísticos que querem, e devem, dar destaque a esta particularidade histórica, que é um fato recente, mas emblemático para mim, numa linha histórica de racismo que se mantém no Brasil, que precisa ainda ser tratada de forma mais aberta na sociedade atual.

A história não é nova porque muito do que se construiu e pintou nas igrejas do Brasil foi feito por negros, principalmente para brancos. Não esquecer do mestre “mestiço” Aleijadinho e ajudantes, por exemplo. Sem deixar de lembrar que negro nem podia ser enterrado em cemitério cristão, muito menos dentro de igreja, como era feito com a maioria das famílias abastadas dos locais.

A história do altar-mor da igreja matriz de Pirenópolis me parece um bom exemplo de que a história da contribuição do negro à formação do Brasil, não se restringe à questões de casa grande e senzala, mas em muito às singelezas das suas participações culturais, sociais e políticas, que podem ser visualizadas de perto nos detalhes dos entalhes dos altares-mor que ainda resguardam ou mesmo salvam as riquezas nacionais.

Abraços,

Felipe Diniz

Fontes:

http://www.pirenopolis.tur.br

http://wapedia.mobi/pt/Igreja_Matriz_de_Nossa_Senhora_do_Ros%C3%A1rio_(Piren%C3%B3polis)

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One Response to ALTAR-MOR DOS PRETOS

  1. Adelina diz:

    Querido Felipe:

    além do tema importante, o racismo e a intolerância nacionais,da informação sobre Pirenópolis, que eu só conhecia como cidade turística, foi um prazer enorme ler sua crônica. Cabe muito bem aqui o ditado: quem sai aos seus, não degenera.

    Beijão.

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