VELA AO CÓDIGO FLORESTAL DE 65 PARTE II

Gosto dos livros do Bernard Cornwell, além de historiador, um romancista de mão cheia. Das aventuras de suas personagens, especialmente duas me encantam mais: as aventuras de Richard Sharpe, no exército inglês durante as guerras napoleônicas e as aventuras de Uhtred de Bebbanburg, da Nortúmbria, sob o reinado de Alfredo, o Grande, rei de Wessex, reino anglo-saxônico, na formação da Inglaterra, durante as invasões dinamarquesas.

Principalmente nesta última série, que são as crônicas saxônicas, uma frase percorre seus livros, orientando o julgo de Uhtred, poderoso senhor da guerra de Alfredo, sobre todas as desventuras que podem acometer um ser humano: wyrd biõ ful ãræd, que pode perfeitamente ser traduzido como “o destino é inexorável”, pois o sentido da frase é que o destino, o futuro, os fatos vindouros estariam completamente predeterminados. Era uma frase recorrente dos poemas anglo-saxônicos alfredianos, o que mesclava elementos católicos às noções pagãs, como os cultos nórdicos, em que se acreditava que o destino de cada homem era um fio que já estava determinado ao nascer pelas três fiandeiras cegas, as nornas, sob a árvore do Mundo, Yggdrasil.

Penso que, se o relator e os deputados votantes do Projeto de Lei de supressão do Código Florestal usassem isso como argumento para a aprovação do relatório, ao invés do texto apresentado, teria sido muito menos traumático ao governo e à sociedade brasileira receber o resultado, previsto por alguns, da Comissão Especial do Código Florestal, da Câmara dos Deputados.

Na parte de seu texto introdutório, “A Natureza e os Dilemas Morais, Políticos, Ideológicos e Comerciais”, há um erro inicial, quando o autor impõe a temática ambiental como elemento incontornável da encruzilhada moral, política, ideológica e comercial que marca a vida contemporânea. Na verdade, é o contrário: a moral e a política, que sustentadas sobre árvores ideológicas, compõe a base ética social de uma nação, em determinado período histórico, trabalhando assim seu eixo comercial, é que sempre cruzaram com o meio ambiente, fator sine qua non da própria existência humana, como elemento básico para sua biologia e sua sociedade, visto em seu ecologismo.

A partir disso, o relator divaga a respeito de uma linha de economia de mercado, calcada e dois pressupostos: primeiro, na ingerência de nações ricas sobre os recursos naturais de países em desenvolvimento, caso específico do Brasil; e segundo, que a corrente ambientalista é extremamente antropocentrista no sentido de colocar o homem no centro da culpabilidade dos piores desastres ambientais.

Aldo, ao mesmo tempo em que denuncia bolsões radicais conservacionistas, que certamente existem, torna-se, ele mesmo, um radical defensor de uma verdade inexistente: a da dualidade ideológica nesse debate. Aos seus olhos, a aparente simplicidade do debate, claro, há de requerer, uma solução assaz simples, e aí está o perigo! Não há simplicidade em termos de meio ambiente, o que se vê tranquilamente pelo parágrafo aqui instado, que é a continuação do texto introdutório do relatório de Aldo Rebelo, apesar de sua inversão original, a temática ambiental é aspecto de influência primária nos fatores de moral e política sustentadas por um povo.

Há uma preocupação infundada do relator com a política americana de Al Gore, que ele vê como uma amarra aos países em desenvolvimento. Pode até ser, afinal, temos mesmo a história para nos ensinar que impérios são feitos por conquistadores que têm uma linha de conduta para com outros povos desde tempos remotos. Apenas a ponte entre esta pretensa peça global de ação e a necessidade de se transformar o código florestal brasileiro é que são elas. Demonstra uma insegurança, que transcende o conhecimento e ataca até mesmo a história.

Aplaudo o digníssimo deputado se o raciocínio acima tiver sido feito na mudança de contexto histórico guerra fria – mundo contemporâneo, quando, ele advoga que o ambientalismo é refúgio aos desiludidos das ideologias do capitalismo e do socialismo. Mas, de novo, só se o mundo funcionasse como a simplicidade binária de uma linguagem de programador.

O ambientalismos não é uma moda, ele é um produto de conhecimento, advindo do desenvolvimento de múltiplas disciplinas, como a ecologia, por exemplo, e que ainda está muito longe de consolidar suas características, quer seja como movimento, quer seja como modo de viver ou como pensamento ou filosofia. As transformações, sim, estas podem ser enxergadas como revoluções, quando visualizadas no alcance e aceitação por parte de sociedades inteiras que absorvem seus princípios, muitas vezes vendidos, algumas vezes impostos, outras vezes desenvolvidos em seu próprio seio.

O relator traz como um dos alicerces de sua apresentação, uma referência à obra de Malthus, sobre o crescimento econômico, uma das obras que acabou publicizando mais as questões do marxismo um momento posterior a sua publicação, bem como começou, pela sua divulgação, a alicerçar e consolidar as primeiras noções de ecologia teórica.

É evidente que podemos observar a visão de Malthus em todas as ações e conteúdos imperialistas, porque foi escrito em um período inclusive de apogeu do império britânico, mas daí, trazer seu conteúdo para ver braços das ONGs, como mandatários das nações imperialistas, seria uma nova roupagem à medos antigos, que devem encontrar ecos em setores mais conservadores para esta questão, que se dizem mais progressistas, em relação a um código baseado em uma visão antropocêntrica e de fronteira agrícola da década de sessenta, perfazendo uma confusão ideológica e, no mínimo, contraditória.

Não questiono para o momento que haverá muito pouco brasileiro que não se juntará ao coro de descontentamento se estrangeiros pretenderem tutelarem qualquer que seja o patrimônio natural brasileiro, mas como nas décadas passadas de políticas integralistas brasileiras, será que não aprendemos com lemas como “Integrar para Não Entregar”, para termos que ver alguém construir um falso lema de escárnio ao novo código florestal brasileiro: “Estragar para Não Entregar” ou coisas do tipo?!

Esperemos pra ver o que Yggdrasil irá receber do novo Código Florestal do Congresso Nacional Brasileiro. Afinal, com toda a mitologia e simbologia possível, ela também é uma árvore.

É… wyrd biõ ful ãræd, o destino é inexorável!

Abraços,

Felipe Diniz

Fontes:

Old English Dictionaries

The Old English Elegies: A Critical Edition and Genre Study. By Anne L. Klinck

Nornas sobre o Poço de Ûrd

Nornorna vid Urdarbrunnen by W. Meyer X.A. LBH SC, Suécia, 1893. IN Poetic Edda Fredrik Sander's Edition, Suécia, 1893. Versão por: User:Bloodofox.User:Haukurth/Cooperation

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