RAZÃO E SENSIBILIDADE

29/06/2010

            Tá bom, tá certo, foi uma pegadinha, desculpem – pouco a ver com a tão famosa obra de Jane Austen, de 1809-1811, Sense and Sensibility que, na língua-mãe da “terrinha”, chama-se Sensibilidade e Bom Senso.

            Esta pequena crônica tem mais a ver com a greve do Ministério do Meio Ambiente, ou melhor, com as razões, sensibilidades e sensos no pós-greve que se mantém naquele MMA e o desenrolar dos acontecimentos que já consigo ver à uma distância razoável, tanto em tempo – quase um mês, quanto em espaço, afastei-me bastante das atividades coletivas.

            Como naquele romance que beira a era vitoriana, o que não falta nas personagens desse enredo são as razões. Todos parecem tomados dos mais perfeitos juízos sobre suas participações em todos os momentos que envolveram o movimento paredista dentro do MMA. Há de todos os tipos: os que não participaram, os que fingiram participar, os que participaram e delatavam os colegas, os que participaram 10, 20, 30, 40, 50, 60, 70, 80, 90 e 100% da greve, os que eram contra, os que eram simpáticos. Enfim, uma babel colossal de seis mil pessoas.

            Com o final da greve, caiu-nos um bando de sensíveis, inclusive eu. Todos sensibilizados por uma punição que se fez dentro do governo, que é o corte pejorativo da já baixa remuneração em calculados sete dias, o que dá algo em torno de ¼ do salário para que se perdure em bons longos meses. A punição nesse caso não é exemplar, porque não é visível, é só cruel mesmo. Tem punido sensível, não punido sensibilizado, que não teve nada a ver e ficou sensível, que puniu e se sensibilizou e aquele que, miseravelmente, deve punir e gostar.

            Chega uma hora que queremos ver a mistura vitoriana que “A Lady*” trouxe em seu romance para tentarmos trabalhar as razões e sensibilidades, tentando enxergar uma ordem no caos dominante e ver se aprendemos algo e crescemos, acho até que o enredo do livro levava ao caminho do amadurecimento pessoal e moral… bom, vá lá.

            As pessoas parecem ainda assustadas ou incrédulas para o fato que foi uma ordem presidencial o corte de pontos como punição a todos os grevistas e, pra falar a verdade, eu nem entendo o porquê de tanto espanto. Pra mim, isso sempre foi claro, desde as primeiras informações como por exemplo o tratamento, esse, sim, exemplar, dado à Marina Silva, quando ela teve que entregar a cabeça para não perder o juízo de vez.

            O que os colegas ainda terão que se assustar mais é com o quadro que, me parece, não perceberem afigurar-se a sua volta. É que, por mais que um governante seja popular ou tenha uma postura autoritária para um determinado assunto, ele depende de uma rede integrada de serviços e informações chamada de estrutura governamental, que transforma o ato em fato, as diretrizes em execuções e o pensado em feito (no geral, diga-se de passagem). Esta estrutura, mostra-se justamente funcional via uma cadeia de comando nos assuntos correlacionados ao tema do cunho decisório, que vai do primeiro ao enésimo mandatário e que, por força da própria saúde estatal, tem que apoiar a decisão do primeiro. Há um nome bem conhecido pra isso: poder.

            Restam poucas dúvidas, para mim, que o exercício do poder individual é um ônus do sistema presidencialista, por mais que seja discutível a “pureza” de tal sistema no Brasil, pelo próprio perfil de ação complementar do Congresso, mas o fato é que a “instituição” presidente é personificada e, como tal, será sempre carreada da perigosa pessoalidade no poder. Ah, vale a pena dizer também que a tal rede, normalmente é partidarizada ou possui um entranhamento de base política consolidada ao jogo de base aliada no Poder. Isto, que fique bem claro aqui, não quer dizer que as pessoas pertençam ao partido X, Y ou Z, é só pra dizer que determinado(s) partido(s) não são alheios e, como entes políticos, tendem a obedecer à dita regrinha pelo bem do poder consolidado, mesmo que soe muito estranho a alguns partidos e alguns políticos fiquem isolados. Isto é jogo de poder.

            Então, entre sustos e soluços, é possível começar a ver melhor o papel desempenhado pelo MMA no decurso da greve, não como entidade que procurou a autopreservação pelo seu fortalecimento institucional que andaria de mãos dadas com a proposta de reestruturação dos especialistas, mas fundamentalmente como uma entidade que procurou uma sustentação no poder central, abstendo-se quando necessário, tentando neutralizar a greve quando possível e, ponto crucial aqui, apoiando em sua própria cadeia de comando todas as atitudes do governo, inclusive as punitivas – porque no sistema brasileiro de administração pública a cadeia de comando só se mantém apoiando a liderança, normalmente personificada em uma ou mais pessoas.

            Eu tenho minhas reservas, não são certezas, por favor, são reservas, se o governo: Presidente, MMA e MPOG, quer terminar de fato com as medidas de retaliação se não houver o freio do Poder Judiciário, já em tramitação. Há, claramente, um abuso no uso da medida punitiva, o que pode trazer conseqüências de naturezas incertas às pessoas que lhes estão sofrendo. O movimento grevista, mesmo em caráter liminar, foi julgado legal frente a um não cumprimento, por parte do governo de um acordo celebrado em 2008; houve tolerância e acatamento à decisão de se respeitar o retorno dos serviços essenciais; está havendo um fechamento unilateral de negociação para o cumprimento daquele acordo por parte do MPOG e aparente conivência do MMA.

            É bom lembrar também que por uma segurança no ordenamento das coisas é que existem os princípios, estes se diferenciam das diretrizes por transcenderem no tempo os diferentes governos e manter certas regras gerais e básicas sem as quais, todo o mecanismo de segurança institucional, gerencial e administrativo se põe em risco. Este governo não é uma exceção.

            Entretanto, certos princípios como a razoabilidade, neste caso específico, estão sendo tão ignorados que não só deixa o governo juridicamente vulnerável, como expõe traços de governabilidade frágeis na sua linha de comando, o que deve repercutir nas direções dentro do próprio MMA e do MPOG, dos partidos de base e de seus componentes.  Acredito que o governo deveria se preocupar menos em caçar bruxas antes que comece a fazer mártires por aí.

            É… parece que entre a razão e a sensibilidade, quem continua apanhando mesmo além da medida, junto com ex-grevista, é o bom senso.

 Abraços.

Felipe Diniz

 * Pseudônimo de Jane Austin.

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PRA NÃO DESANIMAR

26/04/2010

Aos Colegas Analistas Ambientais do MMA/IBAMA/ICMBio/SFB,           

            Hoje é segunda-feira, dia 26 de abril, próximo do nosso vigésimo dia de greve, fui pensar sobre a semana que passou. Ela foi chave para que vejamos o perfil da nossa greve, pois o quadro de forças e resistências começa a se apresentar, houve repercussão da intransigência do planejamento e corte de pontos, além de um posicionamento pra lá de duvidoso do gabinete ministerial do MMA e de sua Secretaria Executiva. Não entrarei no detalhe dessas questões porque não quero forçar mais uma versão dos fatos; deixemos isso tudo para os pronunciamentos oficiais dos canais estabelecidos pelo Comando de Greve.

            Sei que muita gente sentiu o baque do descrito acima, mas quero contribuir com o que penso ser uma consciência de greve. E o que viria a ser isso? Chamo de consciência de greve toda a justificativa legítima, individual ou de uma categoria, íntima ou pública, que sirva de sustentação ao esforço da greve. Não confundir com as causas da greve, que são os objetivos trabalhistas da luta, que são públicos e objetos claros da negociação. A consciência de greve é uma coletânea de motivos, pessoas ou coletivos, que se juntam às causas da greve para normalmente reforçar e perseverar na luta, mesmo com adversidades promovidas pelo outro lado (aqui é o Planejamento mesmo!). Eis alguns exemplos:

– à intransigência das negociações e ao desrespeito pelos mecanismos de diálogo construídos em centenas de anos de organizações trabalhistas e com muito sangue e suor, minha luta se intensifica;

– conheço colegas em situação financeira pior do que a minha e que não poderiam ter o ponto cortado e que se mantêm firmes na greve. É por eles que também mantenho a minha luta;

– vi colegas que, como resposta aos maus tratos nas negociações, entregaram seus cargos de chefia, mesmo com prejuízos financeiros óbvios, a eles meu obrigado, meu apoio e minha luta; e

– vejo colegas que mantém seu trabalho por medo de chefias irresponsáveis, arrogantes e agressivas. Por eles, minha luta continua.

            Enfim, meu repertório é muito mais extenso do que o apresentado e sei que o da maioria também o é. Da suposta fragilidade que se pensou infligida em nós só percebo nascer uma força que me era insuspeita até então: a da união. Se tiver uma coisa que “agradeço” ao MPOG foi ter me mostrado o quanto somos unidos num país extenso, múltiplo e desafiador como o Brasil e isso fortaleceu ainda mais a minha consciência de greve. Continuarei na greve, sim, pela carreira de especialista em meio ambiente e pelo que acredito. 

Abraços e boa semana de greve a todos (as).

Felipe Diniz

PS. Pra terminar, uma comparação entre duas citações que, pra mim, ilustram bem o momento que vivemos.

 “Nós não vemos necessidade de greve para o diálogo” – Marcela Tapajós*

 Eis uma de nossas possíveis respostas à “dileta” senhora das negociações do MPOG, parafraseando um tal de Martin Luther King**, em 1967:

“A greve é a linguagem dos que não são ouvidos”

 ___________

* Marcela Tapajós e Silva – É uma senhora do SRH do Ministério do Planejamento e que está nas nossas negociações.

** Martin Luther King, Jr. (Atlanta, 15 de janeiro de 1929 — Memphis, 4 de abril de 1968) foi um pastor protestante e ativista político estadunidense. Membro da Igreja Batista, tornou-se um dos mais importantes líderes do activismo pelos direitos civis nos Estados Unidos e no mundo, através de uma campanha de não-violência e de amor para com o próximo. Se tornou a pessoa mais jovem a receber o Prémio Nobel da Paz em 1964. O seu discurso mais famoso e lembrado é “I Have a Dream” – “Eu Tenho Um Sonho”. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Luther_King_Jr.

Vale a pena informar a frase original:

 “A riot is at bottom the language of the unheard” – “Uma revolta é, no fundo, a linguagem dos que não são ouvidos”


Por que a Intransigência do Planejamento Custará Caro ao País?

21/04/2010

            Os analistas ambientais do MMA, IBAMA, Instituto Chico Mendes e Serviço Florestal Brasileiro se encontram a duas semanas em greve e a intransigência com que o Ministério do Planejamento vem tratando o assunto é assustador. Primeiro, porque não entende de meio ambiente, subestimando esta questão internamente e apresentando ao mundo uma forma de pensar e agir diferente. A população brasileira aprendeu e continua aprendendo na base de lições dolorosas sobre o valor do tema e dos profissionais ligados à ele. Em ambos os aspectos, quer seja interno ou externo, o país corre o risco de pagar caro, porque o governo não só subestima as outras nações, como o faz a seu próprio povo.

            Esta falta de sensibilidade com a questão ambiental leva ao segundo ponto aqui: que é a desvalorização motivada da mão de obra que o governo tem na área.

            Esses analistas lutam a sete anos, não pelo aumento do salário, que se encontra bem defasado frente a carreiras semelhantes; mas pela reestruturação da carreira que, na visão deles, fortalecerá a Política Nacional do Meio Ambiente e toda a ferramenta e instrumentário administrativo e institucional ligados a ela. E isto mostra um amadurecimento que mete medo em muita gente. Não critico o Planejamento aqui pelo desleixo com a greve, mas é aqui o cerne de sua intransigência: o planejamento não quer, não deseja este fortalecimento, porque esta visão estratégica o governo tem, inclusive o suficiente para brigar por ela.

            Em duas semanas, o Ministério do Planejamento mostrou um senhor desserviço ao país referente à greve. Não ouviu; resolveu nivelar esta carreira por baixo – com a carreira do serviço social (ganho menor, motivo da deflagração imediata da greve); cortou dias parados antes da justiça se pronunciar quanto à legalidade da greve, o que por si é ilegal; pediu contra-propostas e não quis receber e por aí vai…

            A greve apenas começou, ela podia ter duas semana, mas pode ter mais tempo se não for considerada ilegal ou abusiva. Do que o governo tem tanto medo para usar táticas que não lhe são tão usuais? Ou melhor, por que está cometendo erros tão infantis como cortar o ponto sem decisão tramitado em julgado? O que pode não só insuflar mais grevistas como lhe causar desgastes desnecessários.

            A opinião pública está tímida porque os meios de comunicação ainda nem começaram a falar da greve. Parece-me que o governo está usando o que tem e o que não tem para combater essa greve, num esforço desesperado para conter o que acaba sendo inevitável: a tratativa do meio ambiente por meio de um órgão forte e uma carreira robusta, capazes de elevar o nível das políticas públicas, num cenário igualzinho ao das principais democracias do mundo.

            Aqui digo tranquilamente, sem esperar nenhum Efeito Nostradamus para comprovar, que o país pagará caro porque o Ministério do Planejamento está fazendo o Brasil correr o risco de perder a vanguarda dessa revolução política mundial. O que é uma pena.

Felipe Diniz

Worldlamp

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Nova Arma de Greve é Usada no Distrito Federal

21/04/2010

            No décimo terceiro dia de greve dos analistas ambientais do Ministério do Meio Ambiente, do IBAMA, do Instituto Chico Mendes e do Serviço Florestal Brasileiro, uma nova arma de pressão paredista foi usada. Eu, para que ninguém ouse duvidar, fui testemunha do evento.

            Não que grevistas, principalmente os da área ambiental, não sejam pessoas curiosas e inventivas para com os objetivos do seu movimento paredista. Fazem rap, meditação, são sarcásticos, bem humorados e acostumados, como parte da própria função, a terem um “couro crocodiliano”, pois são capazes de apanhar diariamente na luta pelo meio ambiente, numa época dessas, de um Brasil voraz por desenvolvimento a qualquer custo.

            Mas a arma que quero descrever é obra nazista, porque usa da biologia e da física, além de elementos sociais e culturais, é coisa de laboratório de guerra. Explico: há dois paredões, digo, Ministérios, o do MMA e o do Planejamento, uns oitenta metros um do outro. Quem já gritou num corredor, sabe mais ou menos do que falo. Logo, sabemos como atrapalhar o serviço com a física do som: uma boa fonte sonora e uma música. Mas qual?

            Eis o detalhe sórdido da arma, que projeta o grau de fatalidade do projétil, a megatonelagem da ogiva, o tipo de maldade no coração das pessoas: colocaram a música Índia, interpretada e adaptada pelo Tiririca.

            Na primeira vez, houve paralisia e amortecimento das extremidades das pessoas afetadas (inclusive as nossas). Na segunda vez, as pessoas do Ministério da Cultura, que repartem o prédio com a gente, pararam de trabalhar em protesto (eram mais sensíveis ao ataque, of course). Na terceira vez, todos já pediam, rogavam, suplicavam pela volta dos rojões, apitos e buzinas. Na quarta vez, não vimos nada (aí é que eu acho que o Ministério do Planejamento surtou e considerou, sem ouvir a Justiça brasileira, que a greve era ilegal e cortou nossos dias parados); mas aí resolvemos parar, porque na quinta vez, ficamos realmente com medo das pessoas se atirarem pelas janelas.

            Enfim, aos mais corajosos, disponibilizo a arma aqui. Mas se você se achou corajoso por ter conseguido ouvi-la aí no seu computadorzinho. Vá trabalhar, ponha esta arme de guerre no máximo quatro vezes seguidas e tente raciocinar. É… Guerra é guerra, vale tudo.

Felipe Diniz

PS: Sugiro tocarmos Índia by Tiririca no CCBB quando o Lula estiver lá, antes que a segurança chegue perto da gente, nem que seja por 10 segundos. Daí, ameaçamos mandar um daqueles arquivos bem chatos do power-point autoexecutáveis com a música para todos eles como estratégia de guerrilha eletrônica moderna. O que acham?

Grevista do MMA usando arma poderosa

Grevista do MMA usando arma poderosa. Comissão de Direitos Humanos está atenta.