O PÓS-GREVE

30/04/2010

            Que a greve é um conflito, disso poucos duvidam. Muitos colegas, no início da greve do MMA, IBAMA, Instituto Chico Mendes e Serviço Florestal Brasileiro, compararam a greve com uma guerra, claro que a analogia pára por aqui. A escala dos eventos, em qualquer de seus ângulos, nem se compara. Mas, enfim, foi um eufemismo que, para o momento, serviu aos ânimos de quem estava ali nos primeiros momentos em que se precisava mostrar coragem, força e união.

            De qualquer forma, conflitos, como as greves, estão na categoria de distúrbios sociais, onde uma série de etapas, de cunho trabalhista e normalmente envolvendo tentativas de negociação, foi sendo queimada até que não restasse outra opção senão o movimento paredista.

              Faz quase um mês de greve e muitos de nós começam a pensar no pós-greve, ou seja, na realidade que se imporá após um movimento dessa magnitude. Por duas razões principais: o MMA é uma caixa, falando aqui de sua estrutura – ele é uma sede e um prédio auxiliar, com poucos funcionários, comparado ao IBAMA e ao Instituto Chico Mendes; e com funcionários grevistas que tiveram os pontos cortados.

            As relações na administração pública classicamente e bem en passant são dispostas em dois eixos: horizontais, como os colegas; e verticais, que são as cadeias de comando. É claro que a coisa é mais complexa, mas para o momento é o que nos serve.

            Uma das coisas interessantes nos distúrbios como essa greve, que são fatos coletivos, é que tais relações são expostas a ponto de serem observadas de “dentro pra fora”, ou seja, as pessoas, como são parte de um corporativo se vêem obrigadas a assumir um comportamento, uma postura, diante da greve que, em outros momentos, ficaria dentro do armário ou da casaca, trazendo reflexos para as relações interpessoais de trabalho, quer sejam horizontais ou verticais.

            Nas horizontais, temos os colegas furagreve e nas verticais, as chefias. É simples, não?! Não. Há um fator que trouxe uma grande complicação para esta greve em particular: o corte de ponto dos grevistas.

            No período do presidente anterior, o Fernando Henrique Cardoso, houve um decreto, datado de 1995, que estabelece a obrigatoriedade do envio dos nomes dos funcionários grevistas e a aplicação de sanções pelos dias parados, e que era inclusive alvo da então oposição encabeçada pelo Partido dos Trabalhadores e ainda é questionado quanto a sua legalidade, uma vez que ainda não se dispõe de instrumento regulatório sancionado pelo legislativo que disponha sobre o direito de greve, conforme estabelecido na Carta Magna de 88.

            O Secretário de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento, que já foi, pasmem, da Central Única dos Trabalhadores, grevista que não suportava ouvir falar de corte de ponto, segundo me disseram, permitiu que uma diretora sua, que nunca foi nada disso, usasse esse decreto para cobrar do MMA e de suas vinculadas o nome dos grevistas “perigosos”, aos quais  foi aplicado o dito corte de ponto. Nota: a greve nem ilegal fora julgada. Há mais de 30% trabalhando e os serviços essenciais dos órgãos continuam, por exemplo.

            O mais espantoso à boa parte dos grevistas, inclusive à mim mesmo, não foi o descalabro do MPOG, cuja atitude contraditória com a história de luta de seus dirigentes a gente até espera. A atitude dos dirigentes do MMA de entregar o nome dos grevistas é que foi chocante. Das muitas demandas em aguardo, nas mesas de técnicos e que são de responsabilidade dos dirigentes, que as deixam marinando dia após dia, esta foi surpreendentemente atendida com presteza e eficiência dignas de um serviço público de primeiro mundo.

             O que estava em jogo mesmo no final das contas? De um lado, um bando de grevistas, que não possuem DAS, alguns na base da carreira, ganhando menos inclusive, defendendo apenas a reestruturação da carreira, a qual alguns dirigentes pertencem, com a visão de que isso é necessário ao fortalecimento do órgão, da Política Nacional de Meio Ambiente e ao instrumentário do qual ela se serve para tentar desenvolver o país da forma menos impactante possível ao meio ambiente. Do outro, dirigentes, alguns da carreira, com DAS, que representa um incremento no salário, que não grevaram por medo de perdê-lo, que não tiveram o corte de ponto, que estão muito mais adiantados em termos de vencimento-básico e que “só entregaram” os que estavam lutando, inclusive por eles. Ou estou muito errado ou há um quê de covardia aqui, hein?!

            Dos furagreve, não preciso falar, acho que a covardia deles é menor, apesar de igualmente danosa ao movimento.

            Finalmente, espero que reflitamos nas experiências tiradas da greve, porque às chefias que entregaram os nomes para salvar as próprias cabeças e aos colegas que atraiçoaram um movimento erigido inclusive por eles, suas relações interpessoais estarão todas de pernas pro ar e haja jogo de cintura de cada um para manter o seu próprio bambolê girando no ar em um MMA pós-greve.

Abraços.

Felipe Diniz

PS: Do be-a-bá para o “bom” político:

Do O Príncipe, por Nicolau Maquiavel, 1532:

CAPÍTULO XV

DAQUELAS COISAS PELAS QUAIS OS HOMENS, E ESPECIALMENTE OS PRÍNCIPES, SÃO LOUVADOS OU VITUPERADOS

[…]

Sei que cada um confessará que seria sumamente louvável encontrarem-se em um príncipe, de todos os atributos acima referidos, apenas aqueles que são considerados bons; mas, desde que não os podem possuir nem inteiramente observá-los em razão das contingências humanas não o permitirem, é necessário seja o príncipe tão prudente que saiba fugir à infâmia daqueles vícios que o fariam perder o poder, cuidando evitar até mesmo aqueles que não chegariam a pôr em risco o seu posto; mas, não podendo evitar, é possível tolerá-los, se bem que com quebra do respeito devido. Ainda, não evite o príncipe de incorrer na má faina daqueles vícios que, sem eles, difícil se lhe torne salvar o Estado; pois, se bem considerado for tudo, sempre se encontrará alguma coisa que, parecendo virtude, praticada acarretará ruína, e alguma outra que, com aparência de vício, seguida dará origem à segurança e ao bem-estar.

Da Arte da Guerra, de Sun Tzu, 544-496 a.c.

O general que avança sem cobiçar a fama e se retira sem temer a desonra, cujo único pensamento é o de proteger os seus homens e servir bem ao seu país, é a jóia do reino.

Da A Arte da Prudência, de Baltasar Gracián, 1647:

Integridade e Firmeza – Esteja sempre do lado da razão, e com tal firmeza de propósito que nem a paixão comum, nem a tirania o desviem dela. […] Poucos cultivam a integridade. Muitos a louvam, mas poucos a visitam. Alguns a seguem até que a situação se torne perigosa. Em perigo, os falsos a renegam e os políticos a simulam. Ela não teme contrariar a amizade, o poder e mesmo o seu próprio bem, e é nessa hora que é repudiada. Os astutos elaboram sofismas sutis e falam de louváveis motivos superiores ou de razão de Estado. Mas o homem realmente leal considera a dissimulação uma espécie de traição e preza mais ser firme do que o ser sagaz e se encontra sempre do lado da verdade. Se diverge dos outros, não é devido à sua inconstância, mas porque os outros abandonaram a verdade.

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